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Florianópolis, inverno de 2025.

Caríssimas e caríssimos,

Abre-se em mim neste espaço-tempo o desejo de celebrar o meu percurso de vinte anos de trabalho com a psicanálise. Tempo em movimento, marcado por momentos de aceleração, intensidade, constância. Tempo de pausas, intervalos, paralisações, também tempo de rupturas... de recomeços... A psicanálise nos ensina que o tempo é para além do cronológico e diz respeito ao subjetivo: o verdadeiro tempo norteador dos movimentos. 

Meu Desejo se move na direção do reconhecimento de todas as pessoas que tiveram, deixaram de ter, permanecem tendo, virão a ter lugar na minha caminhada: as minhas referências mestras na psicanálise, meus pares, meus analisantes, as minhas referências nos campos da arte e da filosofia, os meus afetos...

À todas as pessoas que supuseram, supõem, virão a supor um saber nesta analista que me habita, que elas possam abrir seus corações e se deixar investigar quanto as suas dores d’alma.

Celebrar é algo que me acompanha ritualisticamente há muito tempo... me impulsiona à criações que marquem o momento, que retorna numa materialização do meu mundo e se amplia pelo mundo a fora.

ensaiodesi é a minha mais recente criação, resultante dessa caminhada que tenho a emoção, a honra, a gratidão de compartilhar com todos vocês.

Com afeto,

Cléia Canatto

Cléia Canatto, psicanalista. O que me move são os afetos tecidos pela arte, psicanálise e filosofia. Estes são os pilares que me possibilitam acessar e expressar a minha subjetividade e ser fiel a minha singularidade.

Vivo intensamente por dentro sem deixar de permanecer atenta ao que está a minha volta. A minha conexão com a vida é a partir da construção de laços profundos.

Não me atraio e tampouco demoro-me em relações superficiais, nas quais a reciprocidade não está em questão. O que verdadeiramente me interessa é acessar e ser acessada naquilo que tanto eu quanto o outro carregamos de mais inacessível.

A tríade arte-psicanálise-filosofia me norteia e está no centro de minha experiência. Ela determina minhas escolhas, fundamenta meus atos e me autoriza a me ensaiar na vida sustentada pelo desejo. É por ensaiar-me que chego ao meu estilo e assim revelo-me nas buscas incessantes de contornar a falta que me constitui.

Qual a minha concepção de clínica?

A concepção de clínica que me orienta nesses vinte anos de percurso com a psicanálise parte da noção de aposta, pois ela reflete as possibilidades de se ensaiar na vida. Em cada um dos elementos da tríade que me norteia encontro formas de manter a aposta e o ensaiar-se.

Encontro na filosofia uma sustentação para o não saber, a despretensão na obtenção de respostas e a urgência na intensificação de perguntas. Na psicanálise, a constatação da determinância do inconsciente no movimento do sujeito dividido, na travessia pelo desejo e no desafio que consiste o atravessamento de seus fantasmas. Na arte, as infinitas possibilidades de representar o irrepresentável, de construção e desconstrução permanente de si.

A partir dessa concepção, aposto num trabalho na direção de que são imprescindíveis os ensaios para a vida e de tomá-la como o mais desafia-dor-ensaio que a dor-de-existir nos impõe.

Qual a minha concepção de clínica?

O que é preciso?
É preciso fazer um requerimento
e ao requerimento anexar um currículo.

O currículo tem que ser curto
mesmo que a vida seja longa.

Obrigatória a concisão e seleção dos fatos.
Trocam-se as paisagens pelos endereços
e a memória vacilante pelas datas imóveis.

De todos os amores basta o casamento,
e dos filhos só os nascidos.

Melhor quem te conhece do que o teu conhecido.
Viagens só se for para fora.
Associações a quê, mas sem por quê.
Distinções sem a razão.
Escreva como se nunca falasse consigo (...).

Poema “Escrevendo um Currículo”, de Wislawa Szymborska

O que é preciso para me encontrar?

Basta falar comigo...

Quando busco conhecer a trajetória de alguém que cogito para escutar o sofrimento, a minha atenção flutua, os meus ouvidos se abrem, os meus olhos se fixam. E a partir do que ouço, do que vejo, do que sinto, e de muito do que me escapa, me pergunto:

1) suponho nessa pessoa um saber?

2) Que tipo de saber?

Tomo o saber da psicanálise como norteador, naquilo que o saber porta de mais singular, a escuta do inconsciente a partir da suposição de saber num Outro, o que lhe confere a posição de sujeito suposto saber. Assim é considerado aquele que reconhece como portando um saber sobre o meu-mal estar e, portanto, confiro a ele um lugar para me escutar.

Na psicanálise o saber tem conotação ampla e encontra eco no poema de Szymborska à medida que não são somente os saberes formais, as titulações, as filiações que dizem da trajetória de um sujeito, mas predominantemente a sua condição reflexiva. Saber que se revela no modo como o sujeito se posiciona diante da vida, no que sente, no que pensa, no que fala, no que realiza. Sobretudo, implica em não ceder ao desejo ampliando o campo da falta, o que definitivamente define e distingue uma pessoa.

De que tipo de saber se trata?

Tenho como referência a distinção entre os saberes referencial e textual. O primeiro é considerado aquele obtido através  de um conhecimento acabado, generalizante, amparado em teorias encontradas nos livros. Já o saber textual é construído através da análise do discurso, revelando a verdade do inconsciente de cada um. É, portanto, um saber singular, genuíno, um saber inconsciente que cada um tem em si. Por isso, tomo o saber da psicanálise como norteador, naquilo que o saber porta de mais singular do sujeito. O instrumento que utilizo para acessar esse saber é a escuta do inconsciente.

Como acessar esse saber singular?

Mas para que esse movimento de acessar o saber singular do sujeito possa funcionar, existe uma condição. A suposição de saber. Ela dá suporte a cada um dos envolvidos no processo analítico: a psicanalista e aquele/aquela que me procura. Como psicanalista, suponho que há em cada um que me procura um saber inconsciente que precisa ser acessado. Naqueles que me procuram para serem ouvidos, é importante, senão imprescindível, que haja uma suposição de saber em mim. De que alguma maneira tenho um saber sobre o sofrimento e a partir disso é possivel se abrir, falar de si e contar com a minha escuta.

Portfólio

  • Atuação clínica em psicanálise e psicoterapia, com crianças, adolescentes e adultos há 20 anos.
  • Atuação como psicóloga perita na Justiça do Trabalho.
  • Coordenadora Atividade “Psicanálise & Arte” (2015 a 2022)  na Maiêutica Florianópolis -Instituição Psicanalítica.
  • Gestão de equipes multidisciplinares e formação de times em Programa de Desenvolvimento Gerencial em empresas de médio porte.
  • Coordenação de Laboratórios de Sensibilidade Social.
  • Formação em teatro sob direção de Carmem Fossari.
  • Direção artística do espetáculo “As Masculinidades em Ney” em 2023
  • Concepção e direção artística do espetáculo “Ensaios de Si” em 2024
  • Criação e produção de eventos conjugando arte e psicologia.
  • Áreas de interesse: psicanálise, filosofia, arte contemporânea, artes plásticas, música e teatro.

Links

  • Vídeo Silêncio, Colóquio Franco-brasileiro de Psicanálise.

 

 

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